Os reflexos do ano de 1968 se transpõem na cultura contemporânea. Este ano foi um marco nas revoluções sociais e culturais no Brasil que se disseminaram pelo mundo todo. O espírito revolucionário e contestador fizeram surgir uma onda de movimentos artísticos, como o Tropicalismo e o Teatro Oficina que criticavam uma sociedade conservadora e a opressão imposta pelo regime militar. Neste contexto político-cultural, o ano de 1968 se torna um divisor de águas para o cinema brasileiro. Com o AI-5, a segunda fase do Cinema Novo deixa espaço para a terceira fase deste movimento que ganha uma maior individualidade.

O Cinema Novo surge na década de 60 com uma proposta de ser a vitrine da realidade. Seus precursores como, Glauber Rocha queriam fazer filmes anti-industriais. O movimento propunha filmes mais comprometidos com a realidade do seu tempo e procuravam mostrar a nova problemática do homem brasileiro. Eram contra o artificialismo e abordavam a política de forma a discutir os problemas sociais.

A sua temática inicial abordava basicamente a vida rural e a pobreza do nordestino, exemplificado nos filmes “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, ”O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, e “Vidas Secas”, de Nelson Pereira.

O novo não significa dizer que é perfeito. A imaturidade dos cineastas que faziam um cinema sem experiência e sem técnica, teve como resultado um fracasso parcial em relação ao público. As pessoas estavam acostumadas a um cinema norte-americano de linguagem fácil. Sendo assim, a comunicação se torna problemática. A dialética em forma de protestos às hipocrisias morais não são bem compreendidas.

Esse monólogo passa a ser questionado pelos próprios cineastas. Essa etapa é alcançada pela segunda fase do Cinema Novo. Os filmes feitos de intelectuais para intelectuais entram em decadência. O contexto político e econômico traz uma reestruturação do Cinema Novo.

O Golpe de 64 transforma o engajamento político em tema central das produções. Porém, devido à censura, essa crítica aos equívocos do governo militar tinham que ser disfarçadas, como mostra o filme “O Bravo Guerreiro”, de Gustavo Dahl e “ O dragão da maldade contra o Santo Guerreiro”, de Glauber Rocha,ambos produzidos em 1968.

O Cinema Novo se adapta para atender às imposições do mercado. Mas não deixa de ter o seu caráter revolucionário na luta política e ideológica. Nesta fase o “cinema de autor” predomina a fim de confrontar as bases conservadoras. Assim como o ano de 1968 essa fase é considerada heróica no cinema brasileiro, onde a “estética da fome” era utilizada para polemizar.

O surgimento de estéticas cinematográficas como a Nouvelle- Vague empolgou jovens estudantes, críticos e intelectuais. E assim definiu os caminhos do cinema brasileiro. O Cinema Novo trouxe uma revolução na linguagem que atendia as necessidades de uma geração sedenta de mudanças.

O Cinema Novo influenciou e foi influenciado. O Tropicalismo e a descoberta antropofágica foram revelações que levaram a uma mudança de consciência e provocaram uma atitude contra a cultura colonial, mostrada através das telas. Em meio a esse clima revolucionário aparece a terceira fase do Cinema Novo. Em “Macunaíma’ de Joaquim Pedro de Andrade, é desenvolvida uma narrativa mais popular e ligada à comédia. Entretanto não deixa de lado o seu comprometimento político e aborda o assunto com um olhar crítico e lúcido. A última cena do filme, onde o casaco de Macunaíma, que mais parece uma farda, é engolido por sangue, ficará marcado no imaginário do público.

A busca de uma infiltração no inconsciente coletivo é feita nos filmes através de uma estética-política. São usados também elementos típicos da cultura brasileira a fim de alcançar o público. Desse modo o cinema é utilizado criticamente como caminho para a revolução.

Este momento se diferencia da euforia revolucionária na segunda fase. O Cinema Novo procura nessa terceira fase uma reflexão dos fatos sociais, pois já conquistou algumas etapas e assume uma maior maturidade.

O cinema brasileiro no ano de 1968 é marcado também pelo surgimento do Cinema Marginal. Esse movimento era a favor da antiestética e abordava o público de forma mais direta. Ao contrário do Cinema Novo, os marginais idolatravam a estética norte-americana e eram fãs de cineastas como Alfred Hitchcock. “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla, lançado em 1968, se transforma em um marco do Cinema Marginal.

A terceira fase do Cinema Novo tem sua ascensão em 1968. Mas é interrompida pela repressão política, o que obrigou vários cineastas a ir para o exterior. È assim que o movimento cinemanovista se extingue, mas deixa suas marcas na cultura brasileira. O Cinema Novo representou nas telas de cinema a utopia de uma geração inteira que sonhava em mudar o mundo.